quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Devaneios alcoólicos




Ela gritava tão alto dentro do sótão, pra aliviar a dor. Era uma realidade tão intensa a que vivia, fugia dos padrões casa, trabalho e escola, que nem os das pessoas comuns. Pois existiam muitas razões, muitas intuições, muitas verdades dentro de si, assim acreditando que o cotidiano era apenas uma escapatória, uma forma de amortecer a queda.

Sua bondosa avó subia às antigas escadas da casa para levar bolos, café, biscoitos, e talvez um pouco de paz e consolo. Mas a jovem cismava em não ser recíproca aos carinhos, as minúcias do dia-a-dia. Simplesmente porque os seus pensamentos haviam dominado-a, tomado uma proporção gigantesca. Os limites entre realidade e fantasia haviam se fundido em um só componente. Aquela era sua mente, uma rua com infinitos becos. Somente tinha entrada, não havia saída.

Sua vida era um misto de boêmia e contradição. Os bares alimentavam a sua ilusão, a bebida trazia uma paz indefinível, o efeito era divino. Era mel na boca, doce açucarado, bala de goma. Mas a tal visita hospitalar, a que iria anestesiar sua dor numa só tacada nunca ocorreu. Típica jovem que desejava mais da vida, mas só tinha uma bolsa com uns trocados, familiares amáveis, garrafas velhas de bebida jogadas pelo quarto, gimbas de cigarro, e poucos sonhos realizados.

Pois a bebida a consumira por inteiro. Seus sonhos eram fantásticos, interessantes e totalmente instigantes. Porém eram momentâneos demais, só eram consolidados quando o veneno corria em suas artérias.

Nenhum comentário: