sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fragmentos de mim





Ele criava diálogos insistentes, perguntava e tentava adentrar em meu cotidiano. Aquela grande ruína particular e entediante.

- ‘Porque saber a cor das meias que visto? Ou porque gosto de comer porcarias ao entardecer.
Mudaria o curso humano e pessoal dessas pobres almas ao saber que gosto de tomar doses densas e inquietantes de conhaque até perder a sensibilidade da pele? É lastimável admitir, mas não admito que invadam esse grande porre anual que é a minha realidade.

Samantha, grande parceira de sonhos e frustrações dizia uma frase que levo em todos os meus relacionamentos de longa duração:

- Um copo de vodca é denso e destruidor,. É como um amor arrebatador que te torna escravo. , mas continua sendo bom da mesma forma. Afinal de contas, todo dedicado a um bom copo, e ao amor, sabe que a fase de êxtase e prazer lhe espera.

Era basicamente isso , estava intensamente interessada naquele homem, mas ainda não entendia o porquê das insistentes perguntas, se eu só desejava-o, com toda uma precisão e verdade que perguntas não precisavam ser feitas. Faço parte dos amantes modernos, sei sentir sem precisar perguntar, sinto com intensidade várias almas, e isso me basta.

Se ele precisasse todas as tardes no almoço de uma comida bem feita e de uma cerveja, meu instinto observador iria perceber isto com facilidade e entraria em ação. Nunca quis criar interrogatórios, monólogos, palestras e perguntas em nosso terreno particular. Apenas percebo sutilmente, igual a um predador analisando sua presa, e ajo.

Sempre tem os seus ‘porens’ em tudo que vivemos nesse mundo medíocre. Vivíamos tudo o que o instante nos reservava, então se eu quisesse tomar doses violentas e viver um pouco de promiscuidade, ele deixava. Era um reservatório inesgotável de ‘querer’. Querer beber, querer sentir suas veias pulsando perto das minhas, querer sentir sua e outras respirações ofegantes, querer sentir outras salivas, querer acima de tudo sentir a vivacidade de outros corpos. Assim havia de ser, éramos andarilhos visitando outras vidas e desejos.

Hoje, ao tocar meus seios envelhecidos, boca desbotada e alma inabitada, sinto que tudo foi tão intenso e inesquecível. Doei tanto de mim, denegri-me tanto, que o resto de mim tornou-se fragmentos. Perdeu-se em almas ensandecidas pela arte da depravação. Parti-me em pedaços, igualmente a um copo de encontro ao chão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Apesar de tudo , eles ainda acreditam.



Ela possuía diversos vícios , entre eles a eterna briga com a roupa antes de ir de encontro ao trabalho (nunca achava a cor certa). Apreciava cinema e o esplendor misterioso da fotografia , mas isso não a impedia de deliciar-se ao sorver um Cointreau nas tardes de inverno, aborvendo-se de alguma cultura inútil.
Ele tinha um obstinado interesse por carteado e boxe. Gostava de cozinhar vendo a praia diante da gigantesca janela. O mar , juntamente com a areia, esticava-se , criando um grande tapete. Os transeuntes , absortos com a beleza indescritível do extenso ponto azul , seguiam com um sorriso momentâneo em suas faces. Porém , o crucial é que ele lê histórias em quadrinhos e frequenta as belas cafeterias de sua cidade. Obtinha toda uma simplicidade das coisas e odiava excessos.

Ela , Marília , a amante de cinema e fotogragia , simplesmente amava filmes românticos e toda aquela ideía de felicidade conjugal , mas não sabia amar. Nínguem lhe dera as regras , ou um manual adequado ensinando perfeitamente tal martirio. Se fossemos levar em conta o fato dela gostar do idelismo romancista , chegariamos a conclusão de que algo de bom e valioso havia de ter naquela mulher. Em contra-partida, Marcos , seu atual companheiro - o fâ de boxe e carteado - nunca abria mão de ser feliz por medo do que podia vir, e aproveitava as poucas e boas chances que surgiam em seu caminho.

- 'Permita-se amor , essa é a chance de ser feliz. Não a sua ou a minha. E sim a nossa chance de sermos felizes. - Ele dizia entre sussurros e risos.

- Ser feliz é tão relativo. Isso tudo me assusta tanto - Declamava em seu pessimismo romântico.

Algumas vezes os dois persistiam nestes diálogos inconclusivos , e com muito êxito tudo dissolvia-se em longas doses de sentimentos bons e respeito. Definitamente afirmo , nem tudo era perfeição e caramelo no cotidiano dos dois. Talvez a graça esteja nos pequenos grandes atos , que em muitos momentos passam despercebidos. E esse é o grande dilema , nos humanos estamos nos tornando inumanos. Correndo de atitudes afáveis e desacreditando no bem. Há os adeptos da nova fobia da sociedade contemporanea , o medo. Embora eu já tenha vivido e degustado em pratos frios esse vírus letal , hoje em dia não admito tal massacre , e insisto em manter-me nos antigos alicerces : a honestidade e integridade. Esse sim é sempre o melhor caminho a ser seguido , a melhor escolha

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A Compra



‘Ali o tiro come solto. ‘
‘Soube do último que escapou da FEBEM? ‘
‘Senti pena do Marcos quando ele foi preso por roubar a galinha do vizinho, apanhou dos poliça e tudo, até pediu arrego. ’
‘Vamos comigo até a esquina? Estou com medo, me contaram que na rua dos inúteis rola muito assalto. ’

Acima?
Cotidiano meu caro, apenas um retrato do subúrbio.
Se eu tenho algo contra a rua dos inúteis?
Bem, a morte ronda por ali, mas vende fast food bacana, e umas prostitutas que dá pra degustar legal.
Ahh, meu humor não costuma agradar muito, mas é a linguagem do dia-a-dia.
Ou eu saio, ou me trancafio em casa como um animal aterrorizado.

Nunca neguei que meus gostos são peculiares, pois comer prostitua na rua dos inúteis e caçar nos finais de semana é algo um tanto exótico, não acha?
Ah, que foi?
Nem sou tão inapropriado assim, ta bom que a bandidagem sempre foi meu fetiche, e o crack meu segundo amor.
As contas do aluguel estão se acumulando cada vez mais estou quase sendo despejado.

Mas os artifícios mágicos dão um impulso legal, a gente até pode escolher a realidade em que queremos viver.
Ontem mesmo eu era um cacheiro viajante, estava em um trem de primeira, fumando charutos cubanos e discutindo sobre comunismo com pessoas classe A.
Anteontem degustei belos petiscos num barzinho do Brooklin, e logo após fui tocar o terror em umas menininhas.

Isto não é estimulante?
Pra que me atrelar a tediante e desgastante realidade se posso viver aonde eu quiser?
Posso estar simultaneamente em diversos lugares, vivendo as mais inusitadas situações.
Becos iluminados, cabarés, cigarros importados, quartos rolando ilegalidade e descontração, cassinos, jogatina, espartilhos em mulheres fáceis, conversas com o Bukowski regadas de whisky.
Tudo isso e muito mais meu caro!
É só questão de colocar os 10 conto aqui na mão do titio.
Vai levar logo ou vou ter que ceder amostra grátis hem?