segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Chocolates e café nem sempre são tão doces


III


Fiz um bolo de chocolate com café pra ela, coloquei almofadas em prol do seu descanso, e dei-lhe um beijo na nuca de forma carinhosa. Minha magrela estava doente, parecia um bichinho assustado com a chuva, encolhia-se em forma fetal na cama, não suportava aquela gripe forte.

Mas sempre fui justo com meus amores, sempre procurei fazer com que as pessoas ao me redor se sentissem protegidas, e foi assim com ela naquele dia. Enchi-a de mimos da cabeça aos pés, aluguei um filme e fiz chocolate quente. Foi um dos dias que mais gostei de passar ao seu lado. Mesmo com as contas atrasadas, roupas mal passadas e sonhos não atualizados. Minha preocupação com sua felicidade era tão excessiva que acaba por esquecer de mim.

E seus grandes olhos verdes não pareciam tão radiantes como antes, tomava sua xícara de chocolate quente calada, olhando pra chuva caindo sobre a janela, nem sequer prestou atenção na parte que mais gostávamos do filme. A parte que o mocinho beijava a moça boazinha e ambos subiam na lambreta alegres e sorridentes. Sim, tínhamos certa queda por amor retrô, era o nosso forte. O amor contemporâneo nunca nos agradou.

Perguntei se o dia não estava tão agradável quanto eu achava que estava, e monossilabicamente ela respondeu: ‘Bobeira. ’ Não sei se era o seu desprezo repentino, mas ela estava linda aquela tarde, trajando uma camisola de seda rosa, que fazia um contraste magnífico com sua coloração branca. E não precisamos trocar muitas palavras, ou procurar formas de como abordar aquela situação pesarosa. Seus olhos transbordavam, pediam num suplicio calado a sua liberdade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Devaneios alcoólicos




Ela gritava tão alto dentro do sótão, pra aliviar a dor. Era uma realidade tão intensa a que vivia, fugia dos padrões casa, trabalho e escola, que nem os das pessoas comuns. Pois existiam muitas razões, muitas intuições, muitas verdades dentro de si, assim acreditando que o cotidiano era apenas uma escapatória, uma forma de amortecer a queda.

Sua bondosa avó subia às antigas escadas da casa para levar bolos, café, biscoitos, e talvez um pouco de paz e consolo. Mas a jovem cismava em não ser recíproca aos carinhos, as minúcias do dia-a-dia. Simplesmente porque os seus pensamentos haviam dominado-a, tomado uma proporção gigantesca. Os limites entre realidade e fantasia haviam se fundido em um só componente. Aquela era sua mente, uma rua com infinitos becos. Somente tinha entrada, não havia saída.

Sua vida era um misto de boêmia e contradição. Os bares alimentavam a sua ilusão, a bebida trazia uma paz indefinível, o efeito era divino. Era mel na boca, doce açucarado, bala de goma. Mas a tal visita hospitalar, a que iria anestesiar sua dor numa só tacada nunca ocorreu. Típica jovem que desejava mais da vida, mas só tinha uma bolsa com uns trocados, familiares amáveis, garrafas velhas de bebida jogadas pelo quarto, gimbas de cigarro, e poucos sonhos realizados.

Pois a bebida a consumira por inteiro. Seus sonhos eram fantásticos, interessantes e totalmente instigantes. Porém eram momentâneos demais, só eram consolidados quando o veneno corria em suas artérias.